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Os vários cérebros do TDAH

Neurofeedback e TDAH: Padrões cerebrais

Descubra os padrões cerebrais comuns no TDAH e a relevância de conhecê-los para realizar treinamentos eficientes com neurofeedback.

Sumário

Meu nome é Tuiã Linhares, sou treinador de neurofeedback e supervisor na Brain-Trainer. Neste texto gostaria de compartilhar um pouco sobre TDAH.

Minha experiência com o TDAH

Tenho um grande interesse nesse tema: TDAH. Especialmente porque foi ele que me levou ao neurofeedback.

Na época em que trabalhava com intervenções educacionais e desenvolvimento cognitivo, percebi que faltavam recursos e ferramentas verdadeiramente eficazes para promover mudanças significativas em pessoas com TDAH.

Um dia, ao pesquisar sobre o assunto, descobri o neurofeedback. Desde então, foi uma jornada verdadeiramente transformadora em minha vida.

O que é o TDAH?

TDAH é a abreviação para Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade e caracteriza-se pela dificuldade na autorregulação.

Isso resulta em dificuldades de concentração, memória de trabalho reduzida, ou seja, a pessoa não consegue armazenar muitas informações novas na mente de uma vez só.

Há também prejuízo na noção de tempo. A pessoa pode sentir que passou pouco tempo quando na verdade passou muito, ou então pode se envolver em uma tarefa e não perceber o tempo passando, resultando muitas vezes em atrasos para compromissos.

Além disso, há dificuldade na antecipação de ações, baixa regulação emocional, baixa motivação e dificuldade para se manter alerta e controlar o corpo, especialmente nos casos em que há hiperatividade acompanhando o TDAH.

Embora nem todas as pessoas com o Transtorno de Déficit de Atenção apresentem hiperatividade física necessariamente, é comum a presença de um excesso de atividade mental. É como se a mente da pessoa nunca desligasse, e o cérebro não conseguisse parar de processar informações, o que acarreta uma série de prejuízos no dia a dia.

Perguntas comuns sobre TDAH

Muitas vezes, sou questionado sobre diversos temas relacionados ao cérebro, mas algumas perguntas se destacam pela frequência com que são feitas. Duas delas, que sempre surgem quando o assunto é TDAH e a metodologia Brain-Trainer, são as seguintes:

Como posso identificar em um mapeamento cerebral se alguém tem TDAH ou não? E, em segundo lugar, quais protocolos de neurofeedback são garantidos para funcionar com o TDAH e produzir bons resultados?

É interessante porque essas perguntas são recorrentes.

Há quem acredite que o neurofeedback pode diagnosticar, e há aqueles que buscam por “protocolos mágicos”, com a crença de que existe um único protocolo capaz de resolver todos os problemas de um cliente. Existe a ideia de uma solução rápida e universal, como uma bala de prata, que pode ser aplicada a qualquer pessoa com um mesmo sintoma.

Eu gostaria de mostrar aqui que isso não é verdade.

Portanto, minhas duas respostas para essas perguntas são…

Identificando o TDAH em um mapeamento cerebral

“Como posso determinar em um mapeamento cerebral se uma pessoa tem ou não TDAH?”

Isso não é crucial para o neurofeedback ou o treinamento cerebral.

Em breve, explicarei o motivo.

Paradigma do diagnóstico baseado em comportamento

“Quais protocolos sempre funcionam com TDAH?” 

A resposta é: nenhum. Não existe “protocolo mágico”. Nada funciona 100% das vezes para qualquer pessoa. Os protocolos precisam ser ajustados conforme cada cliente, de acordo com o perfil do cérebro.

A ideia de que o TDAH possui um único marcador específico no cérebro e de que pode ser trabalhado no neurofeedback com um único protocolo mágico faz parte de um paradigma: o paradigma do diagnóstico baseado em comportamento. 

Na verdade, este é o paradigma atualmente utilizado pela medicina para o diagnóstico de TDAH. Assim, quando um médico, psiquiatra ou neurologista avalia um paciente para determinar se ele tem TDAH ou não, ele se baseia principalmente em aspectos comportamentais: sintomas relatados pelo paciente, comportamentos observados em diferentes contextos e desempenho nas atividades diárias. Com base nessas informações e observações é que normalmente o profissional de saúde apto a isto realiza o diagnóstico.

Este é um paradigma que tem orientado a medicina e a área da saúde nos últimos anos.

Uma perspectiva diferente

O que gostaria de apresentar hoje é uma perspectiva diferente. Uma abordagem em que não rotulamos a pessoa ou atribuímos um nome à sua dificuldade com base apenas no que observamos: nos sintomas, nos comportamentos.

Em vez disso, realizamos um estudo minucioso do cérebro para compreender exatamente como cada área do cérebro está se comportando e como isso pode estar trazendo benefícios ou prejuízos para a pessoa cujo cérebro opera dessa maneira.

Diferentes sintomas e comportamentos, um mesmo termo

Ao longo dos anos, o termo TDAH incorporou uma variedade tão ampla de características que hoje em dia se tornou um termo extremamente vago.

Quando um cliente chega ao meu consultório dizendo que tem TDAH ou que recebeu esse diagnóstico, para mim isso não significa muito.

Por quê? Porque o TDAH é como um grande guarda-chuva debaixo do qual encontramos uma diversidade de pessoas, com comportamentos muitas vezes bastante distintos uns dos outros.

Há pessoas que têm dificuldade de concentração, mas conseguem ficar horas sentadas na sala de aula, aparentemente tranquilas, enquanto suas mentes vagam sem conseguir focar em nada.

Outras, também rotuladas com TDAH, têm um perfil completamente diferente. São agitadas, incapazes de permanecerem sentadas por mais de alguns minutos, sempre querendo se levantar. Parece haver algo que impede essas pessoas de controlarem seus corpos adequadamente. 

E entre esses diferentes tipos, há aqueles que se perdem em pensamentos constantemente, enquanto outros podem não ter esse problema, mas ainda assim se mantêm excessivamente ligados ao ambiente, o que dificulta o foco e a continuidade do raciocínio.

Enfim, são perfis totalmente distintos, mas dentro da abordagem tradicional, todas essas pessoas poderiam ser rotuladas como TDAH.

O que isso realmente significa na prática?

Quase nada.

O foco no funcionamento cerebral

Ao chamar pessoas tão diversas e sintomas tão variados com um único termo, estamos, na verdade, agrupando tipos de cérebros que diferem significativamente entre si.

Indivíduos com comportamentos distintos, sintomas diversos, emoções variadas e regulação emocional diferente geralmente possuem cérebros distintos.

Por isso, torna-se desafiador querer categorizar as dificuldades de uma pessoa com base apenas no que observamos de suas manifestações.

Eu preferiria destacar não os sintomas, mas sim o funcionamento cerebral.

O que pretendo mostrar aqui são alguns padrões cerebrais comuns em pessoas com déficit de atenção.

Padrões cerebrais comuns em indivíduos com déficit de atenção

Meu objetivo aqui não é apresentar uma lista exaustiva de todos os padrões possíveis, pois isso seria uma lista realmente muito extensa.

Entretanto, gostaria de destacar alguns dos padrões frequentemente encontrados, tanto por mim quanto por outros treinadores de neurofeedback, ao mapear o cérebro de pessoas que receberam o diagnóstico de TDAH.

Razão teta-beta demasiadamente alta ou baixa

A razão Teta/Beta tem relação com dois tipos distintos de ondas cerebrais: as ondas Teta e as ondas Beta.

Quando analisamos as ondas cerebrais, elas se diferenciam pelo ritmo de vibração de cada uma.

Existem as ondas Delta, que são mais lentas, as ondas Theta, também lentas mas não tão lentas quanto as Delta, as ondas Alfa, as ondas Beta e as ondas Gama. A frequência de oscilação da atividade elétrica no cérebro é o que diferencia esses tipos de ondas.

Ocorre que diferentes ondas produzem efeitos distintos e se correlacionam com diferentes efeitos observados no cérebro.

Assim, destacando esses dois tipos de ondas que mencionei, primeiro, as ondas Theta são associadas ao pensamento interno, à criação de imagens mentais e ideias criativas. Elas estão ligadas à capacidade de ter ideias “fora da caixa”.

Por outro lado, as ondas Beta são relacionadas ao processamento de informações e à interação com o ambiente. Permitem a interação com o meio externo, o recebimento e o processamento de informações do ambiente.

Portanto, é crucial que haja um bom equilíbrio entre esses dois tipos de ondas no cérebro. Entretanto, nem todas as pessoas possuem esse equilíbrio.

Alta

Quando analisamos alguns trechos específicos do mapeamento cerebral, feito com o TQ7, observamos pessoas com razão Teta-Beta alta. 

Como no exemplo abaixo:

Tabela e gráfico representando a razao teta/beta alta

Essa razão é uma comparação entre a quantidade de ondas Teta e de ondas Beta no cérebro. Valores altos aparecem em vermelho na tabela e nos gráficos correspondentes.

No exemplo, o cliente apresenta um alto nível de ondas Teta e um baixo nível de ondas Beta, resultando em uma razão Teta-Beta alta. Valores acima de dois são considerados altos, e esse cliente chega a ter valores de 10 ou 8, dependendo da área.

Pensando neste tipo específico, da razão Teta-Beta, indivíduos diagnosticados com TDAH podem apresentar uma razão Teta-Beta alta, especialmente na região frontal e central do cérebro, e não necessariamente nas áreas posteriores.

Baixa

Outro tipo comum de pessoa diagnosticada com TDAH é aquela que apresenta o oposto do mencionado anteriormente: uma razão Teta/Beta baixa. Esse perfil é caracterizado por um excesso de ondas mais lentas e uma baixa quantidade de ondas rápidas.

Razão Teta Beta baixa - gráficos e tabelas do mapeamento cerebral

Este cérebro também mostra claramente um desequilíbrio em seu funcionamento.

Algumas pessoas enfrentam dificuldades no autocontrole e nas funções executivas devido a uma razão Teta/Beta baixa. Isso significa que essas pessoas possuem uma quantidade excessiva de ondas beta em relação às ondas Teta. Consequentemente, elas têm dificuldade em acessar estados internos e em desconectar-se do ambiente ao seu redor.

Essas pessoas possuem cérebros que não filtram adequadamente os estímulos do ambiente, trazendo para dentro tudo o que está ao seu redor, independentemente de sua relevância. Isso resulta em uma mente extremamente agitada, desperdiçando energia em processos desnecessários e disfuncionais.

Essas pessoas podem tentar manter o foco em uma tarefa, mas são facilmente distraídas por estímulos externos, como barulhos ou movimentos ao seu redor. Mesmo que se esforcem para se concentrar, encontram dificuldade.

Além disso, muitas vezes apresentam uma grande dificuldade no controle corporal e uma sensibilidade exacerbada aos estímulos do ambiente, levando a uma desorientação mental e pensamento desorganizado.

Um exemplo clássico desse padrão é uma baixa razão Teta/Beta em todo o cérebro, especialmente nas áreas central e posterior, indicando predominância de ondas beta em áreas que não deveriam apresentar tantas.

Além disso, um ritmo sensório-motor muito reduzido revela a falta de controle corporal, como se o corpo agisse independentemente do cérebro, resultando em agitação e movimentos constantes das mãos, pés, entre outros.

Nesses casos, também é comum observar uma baixa frequência de pico alfa, especialmente em áreas frontais do cérebro, o que dificulta o funcionamento dessas áreas, resultando em lentidão no processamento de funções como auto monitoramento, tomada de decisões e atenção concentrada.

A frequência de pico de alfa é uma medida da velocidade de processamento de informações do cérebro.

Essas características podem ser representadas graficamente por barras azuis na região correspondente.

Cérebro Lentificado

Um marcador comum em pessoas diagnosticadas com TDAH é o que chamamos de cérebro lentificado, caracterizado pela presença abundante de ondas Teta, associadas a um ritmo sensório-motor baixo.

O ritmo sensório-motor, específico da região central do cérebro, ajuda a manter o corpo tranquilo e relaxado.

No entanto, muitas vezes, pessoas com TDAH têm dificuldade para relaxar o corpo, o que impacta a capacidade de concentração, criando desafios no processamento de informações e na manutenção de foco contínuo em tarefas específicas.

Assim, temos uma pessoa com alta presença de ondas Teta no cérebro, o que dificulta sua conexão com o ambiente externo e a torna propensa a divagar em seus pensamentos.

Isso resulta em dificuldades na regulação corporal e lentidão no processamento de informações. Essa pessoa pode não conseguir assimilar grandes volumes de informação rapidamente nem formular conclusões ágeis.

No dia a dia, essas características podem causar vários prejuízos, como dificuldade para acompanhar aulas ou para participar ativamente de reuniões no trabalho, já que a mente frequentemente se desliga e desconecta.

Excesso de ondas rápidas e lentas - Padrão bacia

Há um outro tipo que aparece com menos frequência que os anteriores, mas que ainda é comum. É a pessoa que apresenta tanto um excesso de ondas lentas quanto de ondas rápidas no cérebro.

Isso é conhecido como padrão bacia. Literalmente, observa-se no gráfico o desenho de uma bacia, indicando que o cérebro possui muitas ondas lentas e rápidas, mas uma quantidade insuficiente de ondas médias.

Gráfico representativo do padrão bacia

Consequentemente, o que ocorre? Esse é um cérebro que não consegue estabelecer uma boa comunicação entre o que acontece internamente e externamente.

Isso ocorre porque as ondas médias desempenham um papel crucial de ponte entre o mundo interno e o externo. Quando essas ondas estão ausentes, a pessoa com o padrão bacia geralmente experimenta os aspectos negativos tanto das ondas lentas quanto das rápidas.

Isso resulta em uma dificuldade acentuada para integrar o que acontece externamente com os processos internos, o que comumente leva a problemas de aprendizado. Para aprender qualquer coisa, precisamos de uma conexão entre o externo e o interno.

Quando estou lendo algo ou assistindo a uma aula, preciso de ondas beta para me conectar com o externo, ondas médias para internalizar essa informação e ondas lentas para processá-la internamente.

Na ausência dessa “ponte”, a pessoa terá dificuldade em absorver novas informações e em trazer para si as experiências do dia a dia.

Além disso, a pessoa experimentará a agitação típica das ondas rápidas, com um processamento contínuo de informações que parece um ruído de fundo no cérebro.

Também enfrentará a tendência de perder o foco, desviando-se facilmente dos pensamentos, um traço característico das ondas lentas.

Bloqueio de alfa reduzido

Outro perfil que frequentemente é diagnosticado com TDAH é aquele com um bloqueio de alfa reduzido.

A onda alfa, como mencionei antes, atua como uma ponte e é benéfica em certas condições. No entanto, um excesso dessa “ponte” pode ser prejudicial.

O que esperamos ver em um mapeamento cerebral de uma pessoa com funcionamento normal? Com os olhos fechados, esperamos atividade das ondas alfa na parte posterior do cérebro. Contudo, essa atividade deve quase desaparecer quando os olhos estão abertos.

No exemplo que temos aqui, a pessoa mantém a atividade alfa mesmo com os olhos abertos. Isso resulta em um estado que lembra muito a meditação:

Cérebro com Bloqueio de Alfa Reduzido

Na semana do neurofeedback, tivemos uma palestra sobre meditação, destacando o papel das ondas alfa em ajudar a manter a mente silenciosa e alerta, sem processar muita informação — um estado de baixo consumo energético no cérebro. Isso é ótimo em certos contextos, como na meditação, onde a produção de ondas alfa é fundamental.

Mas imagine alguém que permanece constantemente nesse estado meditativo, mesmo durante uma aula ou ao resolver um problema matemático. O cérebro dessa pessoa está em um estado de mínimo processamento de informações, o que pode ser problemático.

Portanto, ao observar alguém com olhos abertos realizando uma tarefa, se o cérebro ainda apresenta alta atividade alfa, como podemos ver aqui, isso indica que terá dificuldade em se conectar com o ambiente e processar informações complexas, ou em lidar com situações que exigem um grande volume de informações e a interação entre elas.

Isso também é um perfil que pode receber um diagnóstico de TDAH.

A Importância de conhecer o cérebro

É extremamente importante compreender o funcionamento do cérebro. 

Ainda que todos padrões acima mencionados fossem de pessoas que receberam o diagnóstico de TDAH, a abordagem em termos de neurofeedback e os protocolos a serem aplicados são completamente diferentes para cada uma delas.

Esses padrões não são diagnósticos

Quero destacar esses padrões e ressaltar que, embora frequentemente encontrados em pessoas com TDAH, eles não são uma condição essencial.

Portanto, nem todas as pessoas diagnosticadas com TDAH necessariamente apresentarão um ou mais desses padrões.

Da mesma forma, possuir um ou mais desses padrões não significa automaticamente que a pessoa tenha TDAH.

O que estou apresentando são correlações: aspectos que, muitas vezes, identificamos juntamente com o diagnóstico de TDAH.

Ainda há muito a ser explorado nessa área.

Um quinto padrão: Outros

Há muitos aspectos que, no final das contas, podem levar uma pessoa a enfrentar dificuldades com autocontrole, autorregulação e concentração. Por isso, é realmente difícil querer rotular pessoas baseando-nos apenas nos sintomas que apresentam.

Qual é então a abordagem que considero mais funcional e eficaz?

É compreender como o cérebro está funcionando, independentemente do rótulo que isso possa receber. 

Portanto, quando utilizar o neurofeedback, não se concentre no diagnóstico. Foque no que você observa no cérebro da pessoa.

Porque é isso que realmente fará a diferença para quem tem TDAH e está passando pelo treinamento com neurofeedback.

Um grande abraço, muito obrigado e até a próxima!

Autor: Tuiã Linhares é Físico, Neuroterapeuta e Especialista em Psicopedagogia Clínica. Fundador da Bio-Trainer empresa especializada em Biofeedback da Variabilidade da Frequência Cardíaca. Treinador e supervisor de neurofeedback certificado pela Brain-Trainer, responsável também por coordenar as otimizações do Sistema da Brain-Trainer Internacional.

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